Enzo o Estagiário

                Enzo não lembrava mais do próprio sobrenome de quando era humano, mas lembrava perfeitamente da primeira vez que viu uma encruzilhada depois que voltou a superfície. Não era grandiosa, era apenas uma estrada ruim, um poste piscando e uma madrugada quente demais para estar vazia. Foi ali que entendeu o que significava ser Estagiário Encruzilhado: ficar de prontidão onde o desespero tivesse chance de passar, farejando oportunidade como quem espera cliente em fim de expediente.

                Seu trabalho, em teoria, era simples. Encontrar alguém suficientemente desesperado, ouvir o pedido, avaliar quantos efeitos seriam necessários, explicar as regras do pacto, recolher uma “assinatura” selando o contrato e, se fosse o caso, encaminhar para o superior imediato. Na prática, nada era simples. Enzo ainda precisava lembrar de todos os detalhes, controlar o próprio Impius, parecer seguro diante dos contratantes e, acima de tudo, não envergonhar o Despachante responsável por supervisioná-lo. O problema é que ele o envergonhava com alguma frequência.

                Naquela noite, seu turno já ia mal antes mesmo do primeiro contato. A casca que estava usando tinha olheiras fundas, ombros estreitos e uma expressão de quem pedia desculpas por existir. O disfarce não era ruim para um estagiário, mas tampouco inspirava confiança. Ainda assim, quando sentiu o cheiro de desespero vindo da beira da estrada, ajeitou a postura, limpou o nariz na manga e apareceu no banco do carona de um carro parado, como se sempre tivesse estado ali.

                A motorista era uma mulher exausta, com as mãos tremendo no volante e contas espalhadas no banco do passageiro. Ela não gritou quando viu Enzo. Gente desesperada raramente grita, normalmente ficam confusos. Perguntou quem ele era, e Enzo respondeu com a frase que treinara tantas vezes: que estava ali porque ela precisava de ajuda e para resolver seus problemas concedendo-lhe um desejo. Funcionou melhor do que ele esperava. Em poucos minutos ela já confessava dívidas, medo de perder a casa e o desejo urgente de conseguir dinheiro suficiente para recomeçar a vida.

                Era um pedido clássico, e justamente por isso traiçoeiro. “Dinheiro suficiente” podia significar muitas coisas. Enzo lembrava das instruções: pedido mal formulado sempre termina em reclamação, o que gera propaganda negativa mais rápido que rastilho de pólvora. Então fez o que seu chefe sempre mandava fazer e quase nenhum contratante gostava de ouvir: começou a fazer perguntas. Quanto dinheiro? Em quanto tempo? Para quitar quais dívidas? Queria apenas sobreviver ou também ascender socialmente? A mulher respondeu tudo entre raiva e vergonha, e a cada resposta o pacto mudava de tamanho dentro da cabeça de Enzo.

                No fim, ele concluiu que conseguir dinheiro imediato para quitar as dívidas e deixar uma reserva modesta ainda cabia em um único efeito, desde que fosse bem executado. Respirou fundo, explicou que em troca de sua alma, que seria recolhida apenas em dez anos. Quando disse que precisava de um beijo para selar o acordo. Ela ouviu tudo em silêncio, fez cara de quem suspeitava ser um “golpe” para roubar-lhe um beijo. Pensou que não havia nada a perder, em então aceitou, e deu um beijo de tirar o folego em Enzo, que não lembrava de ter beijado assim em vida. A parte burocrática estava perfeita. O problema veio depois.

                Enzo executou o pacto com todo esmero de que era capaz, inclusive colocou um milhão a mais em agradecimento pela empolgação do beijo. Sentiu o Impius correr, a realidade ceder e o efeito tomar forma. Sucesso, mas ainda assim, quando revisou mentalmente a entrega, percebeu tarde demais a não conformidade: o dinheiro chegaria por meio de uma indenização judicial ligada a um acidente de trânsito envolvendo um parente da contratante. Ela receberia exatamente o que pediu e ainda naquela semana. Mas a forma de receber faria com que a notícia tivesse gosto de cinza. Era o tipo de erro que um estagiário cometia sem poder alegar descumprimento formal.

                Quando a mulher perguntou se havia alguma pegadinha, Enzo sorriu com o melhor cinismo que conseguiu sustentar e respondeu que pactos não eram pegadinhas, eram contratos. Isso era verdade, o que não o impediu de se sentir observado quando voltou para o ponto. O Despachante, Dockery H., apareceu pouco depois, saindo da escuridão como quem surgisse de trás de uma cortina invisível. Tinha postura impecável, como sua camisa escura sem um vinco. Não precisou erguer a voz. Bastou perguntar: “Tu especificaste a origem do valor?”

                Enzo ficou em silêncio por tempo suficiente para confirmar a resposta. O superior fechou os olhos por um instante, apertando-os com a ponta dos dedos. Em seguida explicou, pela centésima vez, que entregar exatamente o pedido não bastava; era preciso entregar de modo comercialmente satisfatório. Repetiu que a credibilidade do encruzilhado sustenta o negócio, e que um contratante frustrado rende menos indicações do que um satisfeito. Depois registrou a operação e mandou Enzo voltar a estudar os modelos de pedido antes do próximo turno. Não houve punição formal. O que houve foi pior: uma aula.

                Mesmo assim, para um estagiário, a noite não tinha sido ruim. Ele tinha captado o cliente sozinho, selado o pacto corretamente, recolhido sua parte da alma e sobrevivido à supervisão. Enquanto caminhava de volta pela estrada Enzo pensava no quanto ainda estava muito abaixo dos grandes nomes da encruzilhada, daqueles que firmavam contratos impossíveis com um sorriso perfeito e um terno sem poeira. Mas também sabia que todo burocrata arrogante, todo curador respeitado e todo despachante cruel já tinham sido, um dia, apenas um estagiário tentando não estragar um pacto simples.

                Antes do amanhecer, ele voltou à encruzilhada e ficou esperando o próximo cheiro de medo, dívida, luto ou desespero. Para um demônio, carreira é isso: acumular almas, suportar humilhações hierárquicas, aprender a “redigir” contratos com precisão e seguir em frente como se fosse tudo rotina administrativa. Enzo ajustou a gravata torta da casca, olhou para os quatro caminhos à sua frente e sorriu sozinho. Se tivesse sorte, em algumas décadas deixaria de ser o problema de alguém e passaria a ser o chefe que aparece da escuridão para perguntar onde foi que o subordinado errou.