Axel e Rose

Contexto: Esta história é narrada por James Beaver, o proprietário do diário de caça, ela se encontrará em um capítulo só de contos que servem de exemplo para background.

Conheci Axel numa dessas noites em que o silêncio pesa mais que o cansaço. Ele era magrelo, cabelo dourado até a metade das costas, bandana vermelha e uma jaqueta de couro que parecia ter enfrentado mais estrada do que ele mesmo. Me contou sua história com uma voz embargada, como quem revive cada cena ao falar, e digo o caminho dele não foi fácil. Eu ouvi com atenção e anotei tudo depois — porque certas histórias merecem ser lembradas.

Era novembro, calor estranho para aquela época do ano em Lafayette, Indiana. Daqueles que antecede uma chuva forte. Axel aproveitou o sábado de sol e levou Rose, sua namorada, para um piquenique. Ela era daquelas que chamam atenção sem esforço: cabelos negros, lisos e volumosos, pele clara, olhos grandes e verdes, e uma boca carnuda sempre pintada de vermelho.

Axel fitou apaixonadamente os olhos de Rose. Estava visivelmente nervoso, pensando que aquele era o momento perfeito para pedi-la em noivado, mas nem dinheiro para a aliança tinha. Ele tinha a certeza de que ela era a mulher da sua vida. Já estavam juntos há 2 anos e nunca brigaram. Era a melhor parceira que já tivera. Então aproveitou o momento e deu sua corrente de prata com uma ankh para ela.

— Rose, sem você minha vida estaria incompleta — ele disse a ela. — Você tem sido a minha melhor amiga, minha amante, o motivo de eu querer ser alguém melhor a cada dia. Aceite essa ankh, como símbolo de que te quero na minha vida para sempre, e assim que eu tiver condições de te dar a aliança que você merece, te pedirei em noivado de verdade.

Ela aceitou sem pensar, dando-lhe um beijo daqueles que te deixa sem fôlego e faz o mundo desaparecer. Estavam em sintonia, afinal, Rose queria tanto quanto ele. Ela virou de costas dando o pescoço para que seu “pré-noivo” colocasse a corrente. Rose segura a ankh em sua mão e sorri. Com um sorriso largo, ela se vira e entrelaça suas mãos no pescoço de seu amado e o olha diretamente. Axel se afoga nos olhos verdes dela, como se estivesse em um mar sereno, e se perde por alguns segundos até ouvir:

— Você é tudo que eu preciso, alianças são só um detalhe bobo.

Ela nunca mais tirou a corrente do pescoço.

Passados três anos, Axel levou Rose para acampar no mesmo local do piquenique. Por mais improvável que parecesse, ele estava ainda mais apaixonado por ela, mesmo já morando juntos há um ano inteiro. Se divertiram o dia todo e encerraram o fim de tarde em frente a fogueira assando marshmallows.

Quando finalmente o céu escureceu, evidenciando a lua cheia e as estrelas, Axel comeu o último doce, levantou e se pôs entre Rose e a fogueira. Então lentamente se ajoelhou tirando do bolso um pequeno estojo de aliança. Ela ria nervosa, sem acreditar no que estava acontecendo. No momento em que ele toma fôlego para fazer a tão esperada proposta, tudo que ele enxerga é o pavor nos olhos de sua amada, seguido de uma dor lancinante e um apagão.

Ao retomar a consciência Axel se vê em um galpão, amarrado pelos pulsos, suspenso em uma corrente com um gancho preso ao teto, seus pés por pouco não tocam o chão. Sem camisa, sentia o frio nas costas e um leve calor vindo de uma pequena fogueira a sua frente, parecia ser a única coisa que o impedia de morrer de hipotermia. Seu corpo todo doía com vários pequenos cortes. Ele procura por Rose a volta, não a vê e acaba desmaiando.

Quando acordou novamente, chamou por Rose, ameaçou matar quem os agrediu, caso tivesse feito algum mal a ela, mas ninguém respondeu. Poucas horas depois entram dois casais, os quatro pareciam motoqueiros, mas Axel não ouviu motores se aproximando. Ele pergunta o que aconteceu com Rose, mas todos o ignoravam. Um deles alto e loiro, traz um saco com algum tipo de sopa e um canudo embutido, pendura com uma alça no pescoço de Axel, dá dois tapinhas no rosto dele e diz:

—Bebe e vê se não morre garotão!

Axel não bebeu, gritou e foi ignorado até que um deles, o grande, moreno de ombros largos, olhou e disse — “Cale-se e durma” — ele queria resistir, mas simplesmente apagou.

O sol já estava alto, quando a luz o fez despertar pela terceira vez. Ainda enebriado pelo sono forçado e a falta de comida, Axel se esforça para manter a lucidez diante da situação de desespero. Pensamentos cruéis passam em sua mente. O que eles fizeram com Rose? Onde ela estava? Que tipo de atrocidades estes maníacos podem ter feito com ela?

Em meio as divagações, o sol a pino iluminou por entre frestas no teto e nas paredes o que parecia ser um velho celeiro. A luz revelou o que ele não conseguiu ver a noite, cinco caixões enfileirados ao fundo, quatro antigos e largos como os que vampiros usam em filmes, e um que aparentava ser mais novo, estreito com tampa removível. Axel também reparou em um toco de madeira, daqueles usados para rachar lenha, com um facão enferrujado cravado nele.

O tempo passa com a lentidão, que só alguém ansioso experimenta enquanto espera. Axel só tem ideia da passagem de tempo pelo movimento quase nulo do sol refletido nas janelas, até que a penumbra da noite lentamente transfigura o ambiente. Durante todo o dia Axel ficou imaginando o que queriam com ele, para que eram aqueles caixões, e principalmente o que aconteceu com Rose.

Um chiado agudo, seguido de gritos estridentes de forma ritmada, marcam o início do anoitecer da segunda noite do pior momento de sua vida. Logo ele escuta o ranger de madeira e o burburinho de conversa ao fundo do celeiro. Aos poucos os dois casais se aproximam. O rapaz loiro, reacende a fogueira na frente de Axel, que sente o conforto do calor, apesar do ambiente hostil.

Axel segue observando, já entendeu que não adianta falar com eles, então segue observando. Havia ainda as duas garotas, uma loira e uma ruiva, aparentemente uma se chamava Sigrid e a outra Svetlana. A que parecia russa em algum momento chamou o grandão de Luke, que parecia ser o líder do grupo.

A Sigrid, caminhou em direção ao Axel olhando para ele como se fosse um pedaço de carne em um gancho de açougue. Pegou o facão, que apesar da aparência, estava bem afiado, no toco de lenha, e o cortou suavemente, só o suficiente para sangrar um pouco. Aquilo doeu bastante, até que ela lambeu o sangue que escorria pelo seu corpo. Quando sua língua tocou o corte, subitamente a dor o abandonou. Um calor aconchegante o abraçou, seguido de um prazer que jamais pensara ser possível. Então os outros vieram e fizeram o mesmo —Ele parecia confuso quanto ao que realmente aconteceu — mas dessa vez não sentiu a lâmina, apenas aquele êxtase se multiplicando a cada boca que o tocava.

Quando eles acabaram, Axel estava confuso, ofegante, cansado e implorando por mais. Então percebeu que havia tomado um saco inteiro de sopa como o que tentaram lhe dar na noite anterior. Todos saíram. Apenas algum tempo depois reparou que seus pés raspavam as pontas no chão. Talvez a corda tenha afrouxado um pouco — pensou sem muita certeza.

Ao voltar eles estavam sujos de sangue, Axel começou a desconfiar que eles realmente acreditavam ser vampiros ou algo assim. Achou que talvez fossem canibais. Questionou-se a possibilidade de eles terem comido a Rose. Não sabia como, mas estava decidido a matar eles. Todos tiraram as camisetas, jogaram no fogo e entraram nos caixões. Não demorou a raiar o dia.

Novamente acordou perto do meio-dia e começou a tentar se exercitar, conseguiu segurar na corrente, se puxando para cima, cansava rápido, dava um tempo e tentava de novo. Ficou pensando se eles não eram vampiros de verdade, o que parecia absurdo, mas naquele momento não fazia diferença. Repetiu o ciclo pelo máximo de tempo que aguentou, até cair dormindo.

Acordou com os caixões se abrindo. Eles o ignoraram completamente desta vez. Luke e Sigrid saíram, dizendo que tomariam um banho. O grandão então deu uma ordem para o loiro que até então ele não sabia o nome:

–Sten, fique de olho no gado – neste ponto Axel tinha certeza de que ele era a comida – Alimente ele!

Foi difícil não ficar encarando os dois, ainda sem metade da roupa, Axel olhava para eles e lembrava da noite anterior, e ficara indeciso entre querer mais daquilo ou matá-los. Sten saiu dizendo à ruiva que ia buscar comida para mim e já voltava. Então ela se aproximou lentamente e foi quando Axel percebeu realmente que a coisa era mais surreal do que estava acreditando. Svetlana sorria para ele, enquanto seus caninos cresciam notadamente, até que ela pega o facão lhe faz um novo corte junto as costelas e começou a lamber.

Na volta Sten brigou com ela — Axel estava confuso, mas foi algo como — “o Luke vai te matar se perceber que você fez isso, que agora o gado deveria ser guardado para a novata”. Ela se desculpou, ou xingou de volta, ele não tinha certeza. Passado algum tempo, o chefão volta com Sigrid, agora limpos e completamente vestidos. A loira bate na cara da Svetlana dizendo que Axel estava fedendo a sangue e a saliva dela. Que ela tinha que respeitar a hierarquia.

Sten lhe deu comida e saiu com a ruiva, e só voltaram quando estavam limpos e devidamente vestidos. Axel achou estranho que todos pareciam ansiosos. Ficaram bebendo cerveja o resto da noite. Desta vez a sensação de êxtase pareceu passar mais rápido. Ficou se perguntando se o que viu era real, se eles iriam comê-lo, e se a hierarquia era tão importante, por que a novata tinha prioridade sobre uma veterana?

Meio-dia, Axel retomou os exercícios, ao terminar reparou que seus pés, com exceção dos calcanhares já tocavam o chão, mas ainda não conseguiria pular para soltar a corda do gancho. Novamente à noite eles o ignoraram, o alimentam, saíram, voltaram, brigaram, beberam, enquanto ele se perguntava quanto tempo essa rotina se manteria.

No quinto dia Axel se exercita com afinco, pensando que quanto mais o fazia, mais a corda afrouxava. Parava, descansava e recomeçava, de novo e de novo, até que seus pés tocaram o chão, então ele conseguiu pular e se soltar do gancho caindo no chão.

A dor em seu corpo era intensa, ele desmaiou, e só acordou com os gritos estridentes das corujas. Levantou-se e foi até o facão no toco de lenha, e esfregou a corda para cortá-la. Ouviu o primeiro caixão abrindo, esfregou ainda mais rápido, então a voz de Sten ressoou:

— O GADO SE SOLTOU!

                Ele salta, praticamente voando sobre Axel, que sem pensar cravou o facão no peito do vampiro, e na sequência o empurrou com seu pé para liberar a lâmina. Ouviu alguém correndo e urrando na sua direção, era Sigrid com presas e garras enormes. Reagiu sem pensar, um golpe certeiro no pescoço e a cabeça dela saiu rolando.

                Sten, o qual Axel acreditou que estava morto, se levanta e ataca-o novamente, dessa vez tendo sua cabeça cortada como aconteceu com a outra. Enquanto o corpo cai, Axel confere se a vampira levantou novamente, enquanto é atacado por Svetlana. Ela crava as garras em sua barriga, mas isso só a deixa com seu pescoço desprotegido, e mais uma cabeça rola pelo chão.

                Agora ele estava cansado e sangrando, tinha que se livrar de Luke antes que perdesse a consciência. Axel ouve a voz do vampiro vindo da frente do celeiro, se vira pronto para atacá-lo, mas não o vê. As portas do celeiro estavam escancaradas, por entre elas era possível ver o que talvez fosse os olhos de Luke, duas brasas luminescentes flutuando em pleno ar. Então escutou sua voz:

—Você matou minha família, mas a minha vingança será ainda mais doce.

Neste momento Axel é surpreendido pelo som de madeira explodindo, um rosnado feroz, e por instinto ele gira o corpo, cortando não apenas o ar com o facão. Mais uma cabeça bate no chão, dessa vez me encarando. Era Rose, transfigurada, com presas enormes maculando seu rosto delicado. Nesse momento o Universo desapareceu para Axel, que ficou atônito. Luke poderia ter me atacado, mas não o fez. Então tudo se apaga.

Foi neste momento que Axel me viu pela primeira vez, e eu disse:

—Que bom que você está vivo, achei que não ia aguentar. O ataque foi fundo, normalmente vampiros não costumam ser tão agressivos com as garras. Prazer sou James, costurei sua barriga e salvei sua vida.

Eu estava atrás destes vampiros há meses, mas eles estavam sempre um passo à frente. Chegava vários dias após deles terem partido. Enfatizei que seu feito foi notável. Parecia um caçador veterano. Ele disse que foi a primeira vez, e me contou a história toda desde o começo

Ensinei a ele se livrar dos corpos de vampiros, deixando os corpos em local ensolarado, o sol queima tudo em menos de meia hora. Também encontrei o colar de Rose, disse para ele usar, como uma forma de matar a saudade dela, ele não fazia ideia. Então dei a ele uma carona para casa.

Chegando em seu lar, agora deserto, uma surpresa.

—Oi amor — disse Rose, com olhos com um brilho apaixonado, e um sorriso de tirar o fôlego.

Ele correu para seus braços, a atravessou, tropeçou e caiu. Só então entendendo que ela não estava mais viva. Chorou desesperado como uma criança — Rose me contou esta parte meses depois — pedindo desculpas com lágrimas rolando pelo seu rosto, que ter matado ela era imperdoável mesmo sendo sem querer. Não havia redenção para ele.

Ela tocou o rosto de Axel com a suavidade de uma brisa, e disse:

—Eles me transformaram em um monstro, eu ataquei não só o amor da minha vida, mas o motivo do meu sorriso. Mesmo naquele estado eu não me perdoaria, caso um dia voltasse a recuperar a consciência, eu jamais me perdoaria. Você me libertou, e eu continuarei ao seu lado até o fim.

Às vezes encontro Axel e Rose na estrada, já caçamos juntos, descobri que nem todo “Monstro” é mal. Ao menos os fantasmas de boas pessoas, continuam bons. Eles resolveram que caçariam para impedir que o que aconteceu com eles, aconteça com outros. Juntos são uma dupla extraordinária.

Atualmente ele sabe que um dia ela vai perder a integridade. Ele não suporta a ideia de que um dia, vai ter que pará-la, jamais se perdoaria de a matar uma segunda vez.

Até lá eles estão felizes deste jeito.

Enzo o Estagiário (IA)

                Enzo não lembrava mais do próprio sobrenome de quando era humano, mas lembrava perfeitamente da primeira vez que viu uma encruzilhada do lado de cá. Não era grandiosa, nem cercada de fogo, crânios ou qualquer outro exagero que os vivos costumam imaginar. Era só uma estrada ruim, um poste piscando e uma madrugada quente demais para estar vazia. Foi ali que entendeu o que significava ser Estagiário Encruzilhado: ficar de prontidão onde o desespero tivesse chance de passar, farejando oportunidade como quem espera cliente em fim de expediente.

                Seu trabalho, em teoria, era simples. Encontrar alguém suficientemente desesperado, ouvir o pedido, avaliar quantos efeitos seriam necessários, explicar as regras do pacto, recolher o DNA, selar o contrato e encaminhar qualquer coisa complexa demais para o superior imediato. Na prática, nada era simples. Enzo ainda precisava decorar cláusulas, controlar o próprio Impius, parecer seguro diante dos contratantes e, acima de tudo, não envergonhar o Despachante responsável por supervisioná-lo. O problema é que ele envergonhava com alguma frequência.

                Naquela noite, seu turno já ia mal antes mesmo do primeiro atendimento. A casca que estava usando tinha olheiras fundas, ombros estreitos e uma expressão de quem pedia desculpas por existir. O disfarce não era ruim para um estagiário, mas tampouco inspirava confiança. Ainda assim, quando sentiu o cheiro de desespero vindo da beira da estrada, ajeitou a postura, limpou o sangue seco da manga e apareceu no banco do carona de um carro parado, como se sempre tivesse estado ali.

                A motorista era uma mulher exausta, com as mãos tremendo no volante e contas espalhadas no banco do passageiro. Ela não gritou quando viu Enzo. Gente desesperada raramente grita; primeiro calcula. Perguntou quem ele era, e Enzo respondeu com a frase que treinara tantas vezes: que estava ali porque ela precisava de ajuda e porque certas oportunidades só apareciam uma vez. Funcionou melhor do que ele esperava. Em poucos minutos ela já confessava dívidas, medo de perder a casa e o desejo urgente de conseguir dinheiro suficiente para recomeçar.

                Era um pedido clássico, e justamente por isso traiçoeiro. “Dinheiro suficiente” podia significar muitas coisas. Enzo lembrava das instruções: pedido mal formulado sempre termina em reclamação, e reclamação sobe na hierarquia mais rápido do que alma recolhida. Então fez o que seus chefes sempre mandavam fazer e quase nenhum contratante gostava de ouvir: começou a fazer perguntas. Quanto dinheiro? Em quanto tempo? Para quitar quais dívidas? Queria apenas sobreviver ou também ascender socialmente? A mulher respondeu tudo entre raiva e vergonha, e a cada resposta o pacto mudava de tamanho dentro da cabeça de Enzo.

                No fim, ele concluiu que conseguir dinheiro imediato para quitar as dívidas e deixar uma reserva modesta ainda cabia em um único efeito, desde que fosse bem executado. Respirou fundo, explicou que em troca de sua alma, que seria recolhida em dez anos, explicou que precisava de um beijo para selar o acordo. Ela ouviu tudo em silêncio. Quando aceitou, ela deu um beijo de tirar o folego em Enzo, que não lembrava de ter beijado assim em vida. A parte burocrática estava perfeita. O problema veio depois.

                Enzo executou o pacto com toda a intenção infernal de que era capaz. Sentiu o Impius correr, a realidade ceder e o efeito tomar forma. Houve sucesso. Tecnicamente, um sucesso limpo. Ainda assim, quando revisou mentalmente a entrega, percebeu tarde demais a não conformidade que deixara escapar: o dinheiro chegaria por meio de uma indenização judicial ligada a um acidente de trânsito envolvendo um parente distante da contratante. Ela receberia exatamente o que pediu e ainda naquela semana. Mas a forma de receber faria com que a notícia tivesse gosto de cinza. Era o tipo de erro que um estagiário cometia sem poder alegar descumprimento formal.

                Quando a mulher perguntou se havia alguma pegadinha, Enzo sorriu com o melhor cinismo que conseguiu sustentar e respondeu que pactos não eram pegadinhas, eram contratos. Isso também era verdade, o que não o impediu de se sentir observado quando voltou para o ponto. O Despachante apareceu pouco depois, saindo da escuridão como quem surgisse de trás de uma cortina invisível. Tinha postura impecável, como sua camisa escura sem um vinco. Não precisou erguer a voz. Bastou perguntar: “Tu especificaste a origem do valor?”

                Enzo ficou em silêncio por tempo suficiente para confirmar a resposta. O superior fechou os olhos por um instante, apertando com a ponta dos dedos. Em seguida explicou, pela centésima vez, que entregar exatamente o pedido não bastava; era preciso entregar de modo comercialmente satisfatório. Repetiu que a credibilidade do encruzilhado sustenta o negócio, e que um contratante frustrado rende menos indicações do que um satisfeito. Depois registrou a operação e mandou Enzo voltar a estudar os modelos de pedido antes do próximo turno. Não houve punição formal. O que houve foi pior: uma aula.

                Mesmo assim, para um estagiário, a noite não tinha sido ruim. Ele tinha captado o cliente sozinho, selado o pacto corretamente, recolhido sua parte da alma e sobrevivido à supervisão. Enquanto caminhava de volta pela estrada Enzo pensava no quanto ainda estava muito abaixo dos grandes nomes da hierarquia, daqueles que firmavam contratos impossíveis com um sorriso perfeito e um terno sem poeira. Mas também sabia que todo burocrata arrogante, todo curador respeitado e todo despachante cruel já tinham sido, um dia, apenas um estagiário tentando não estragar um pacto simples.

                Antes do amanhecer, ele voltou à encruzilhada e ficou esperando o próximo cheiro de medo, dívida, luto ou desespero. No inferno, carreira é isso: acumular almas, suportar humilhações hierárquicas, aprender a redigir desgraças com precisão e seguir em frente como se fosse tudo rotina administrativa. Enzo ajustou a gravata torta da casca, olhou para os quatro caminhos à sua frente e sorriu sozinho. Se tivesse sorte, em alguns séculos deixaria de ser o problema de alguém e passaria a ser o chefe que aparece da escuridão para perguntar onde foi que o subordinado errou.